sábado, 15 de dezembro de 2007

Ecoando André Laurentino.

Não conhecia esse sujeito ainda...mas ontem comprei O Estado de S. Paulo e no Guia tinha esse texto dele. E também tinha o link do blog dele, onde tem muitos outros textos interessantes... Fui lá e Copy & Paste.

Eis aqui o texto que agora divido com vocês.


Não ria

Não se deve rir dos mais fracos. Também não se deve rir dos mais fortes (dói muito depois). Não se deve rir dos sofridos. Dos doentes. Ou dos heróis. Não se deve rir dos negros, nem dos branquelos, nem dos pardos durante a noite. Por via das dúvidas, também não ria dos albinos. Não se deve rir dos dentistas (trabalham de pé), não se deve rir dos oficiais de alfândega (experimente e veja o que acontece), nem dos carteiros (são vítimas de assaltos e mordidas), não se deve rir dos banqueiros (eles rirão por último), nem dos mendigos (não é profissão). Não se deve rir das reuniões com Power Point, nem do adversário caído. Não se deve rir em velórios, em filas do PAS, em consultas ao urologista (eles se vingam quando você completa 50 anos), em aulas magnas, em confissões dos alcoólicos anônimos. Não se deve rir de alguém chamado Ilmo porque o pai achava que Ilmo era um nome importante pois sempre vem escrito nas cartas. Não se deve rir de quem é burro. Não se deve rir de mim, que escrevo. Nem de você, que é leitor. Porque não se deve rir das coisas nobres, como a capacidade humana de ler e escrever. Também não ria, por favor, dos analfabetos. Mesmo que eles não saibam do que você está rindo. Ah, não ria dos inocentes. Não ria das piadas, porque invariavelmente elas fazem graça com a desgraça alheia. E não se deve rir da desgraça alheia. Não ria dos católicos (Deus castiga), não ria dos judeus (eles fazem isso melhor do que você), dos evangélicos (eles pagam caro por isso) nem dos ateus (não são filhos de Deus, coitados). Não ria de nós, os nordestinos. Não imite os nordestinos (não é engraçado), não pergunte a tabuada aos nordestinos (não ria da baixa escolaridade da maioria dos nordestinos). Não ria dos gays (deixe isso para eles), não ria dos heteros (se você ri dos heteros, só pode ser gay), não ria dos castos (vivem de mau-humor), nem dos promíscuos (vivem por um triz). Não ria do sexo (humor e sexo não combinam, já viu alguém transar gargalhando?) Não ria de quem tem razão e não ria de quem está errado (amanhã pode ser o contrário). Não ria do seu chefe (não na frente dele), e não ria pelas costas. O mundo é um lugar sério, cheio de gente sofrida e injustiçada. Uma imensa maioria de minorias. Todos penamos muito e não temos o retorno que nos é digno. Meu Corinthians, por exemplo, foi parar na segundona. Você vai rir numa hora dessas?

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo ---- André Laurentino 14.12.07

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