quinta-feira, 24 de julho de 2014

Nosso tempo

A Índia antiga negava toda a realidade no passado, no presente e também no futuro. Ela representava o tempo como um palco onde nasce e morre o mundo transitório das aparências. O tempo, assim como o espaço, é feito de oposições (dvanda). Ambos são gerados na ação dos três gunas, que são três fios da corda que amarra o homem sobre a roda do nascimento e da morte.
Tamas, a gravidade e a ignorância,liga pela negligência e pela indiferença;
Rajas, o movimento, a ação, liga pelo orgulho e a vaidade, e pela tendência ao ativismo;
Sattva, a harmonia, a paz e a claridade, liga pela tendência a procurar
a felicidade e os conhecimentos.

Um ocidental ficará certamente espantado de ver que os indianos dos
tempos passados contavam a harmonia e a paz entre o número de vínculos que prendem a este mundo. É uma concepção totalmente estranha à sua ética. A imagem dos três fios da corda corresponde, no entanto, à visão dos gnósticos para quem o bem e o mal se unem um ao outro neste mundo da dualidade.

Além das recorrentes tribulações,decepções e sofrimentos do mundo dos altos e baixos, existe um princípio eterno que liga o mais profundo dos infernos e o mais elevado dos céus com o prana original e abarca todos os mundos. “Deus não deixa perecer a obra de suas mãos”, como é dito na Bíblia.
Segundo a antiga sabedoria dos indianos, o mundo está em queda e
continua a se atolar na luta das oposições (dvanda) e na ilusão (maya).

Atualmente ele alcançou o ponto mais baixo, a matéria grosseira, as trevas. Esse nadir será seguido de um período de alívio em que a matéria será menos densa.
Um período do mundo consiste de quatro épocas, sendo a primeira a
mais longa, a última a mais curta. Quanto mais o mundo se afasta de
seu domínio de origem, que é santo, mais ele se afunda na matéria e mais
os períodos se tornam curtos, tornando-se cada vez mais difícil aos
grandes iniciados descer no mundo para auxiliar a humanidade.

No Krita Yuga, o dharma, a força da Gnosis, penetra o universo. Todos os seres vivos se consagram inteiramente a manter a ordem sagrada. O nome Krita faz referência à origem, ao primeiro lançamento de dados no jogo de azar. O número quatro exprime uma totalidade. A primeira época se auto-sustenta. Ela se “mantém sobre quatros pernas”
No Tetra Yuga, o ritmo do mundo se acelera. Só três quartos do dharma
sagrado estão presentes. As leis sagradas já não são espontaneamente postas em prática, mas devem ser ensinadas e aprendidas. A ordem divina só se “mantém sobre três pernas”.

O Dvapara Yuga (dva = 2) é a época em que foi estabelecido o equilíbrio entre a perfeição e a imperfeição. O conhecimento direto da ordem divina é cada vez menos acessível.
No Kali Yuga (kala = negro, tenebroso) a transmissão das normas santas é totalmente perdida. No jogo de dados, Kali é a jogada do perdedor.
Segundo o Vishnu Purana, o Kali Yuga começa quando na sociedade o
único poder é o da riqueza, a única virtude, a posse, a única ligação entre
o homem e a mulher, a paixão, a única fonte de prazer, o acasalamento, o único fundamento do sucesso, a traição..

A destituição do divino, do dharma, do ensino, é a razão pela qual o Kali Yuga dura menos tempo.
Esta época, na qual a humanidade atualmente se encontra, e começou na morte do divino Krishna (por volta de 3120 a.C.)
O homem deve libertar em si mesmo a substância divina. Os Upanishads cantam, em versos magníficos, o progresso até a união com Brahman, o divino original. Essa realização é alcançada quando as cinco camadas dos “véus da ignorância”, como os chama Shankara, se rasgam.
A história da espiritualidade indiana é constituída de uma série de tentativas para acompanhar a queda do homem na matéria e indicar-lhe o caminho da reintegração divina.
Em outras palavras, libertá-lo do ciclo dos nascimentos, das garras de Maya, a ilusão. No início ainda era possível se libertar simplesmente
rasgando os véus da ignorância para ver a ausência de realidade do
mundo das aparências.

Mais tarde, o homem precisou se submeter a um processo inteiramente apoiado pelo budismo, entre outros. Em seguida, à medida que o homem afundava na matéria, foi preciso criar novas condições para que ele pudesse retornar a sua origem.
Quinhentos anos depois de Buda, Mestre Jesus disse: “Meu reino não é deste mundo”. Segui-lo significa seguir um caminho no qual o inferior deve morrer e abrir espaço para a nova Alma.
O caminho da libertação espiritual é percorrido na atualidade, hoje e agora: eis o que já ensinava a antiga sabedoria indiana.
"Aquele que reconhece Deus oculto em si, no original-eterno, misterioso,
que permanece no coração, eleva-se acima da alegria e da dor
O espírito não nasce e não morre,
Ele não provém de nenhum lugar e não vai a nenhum lugar.
Ele é imutável e eterno,
Ele está vivo mesmo que o corpo esteja morto.
Ínfimo e, no entanto, maior do que o maior,
Deus está escondido no coração da criatura.
A majestade do ser reconhece, na calma,
Aquele que, sem desejo, libertou-se da dor e das preocupações."