segunda-feira, 2 de maio de 2016

Tende piedade

Peço perdão a Deus pelo que fiz dele durante toda a minha vida: uma ideia, uma imagem, ou seja, uma mentira. Uma massa turva de pensamento denso no topo mais alto da minha mente alucinada. 
Peço perdão por tantos anos de mentiras. Mas não foi de propósito: foi por ignorância. 
Como é possível andar, falar e...Viver, se estamos tão afastados da vida?
Somos capazes de raciocinar, fazer coisas incríveis, entender das coisas e ainda assim sermos zumbis. Nosso estado é tão deplorável que chega a ser assustador. E assim o é por mais um motivo: não conseguimos sentir em nós mesmos que somos zumbis. Com uma atenção chinfrinha podemos até perceber no outro. Mas o outro é zumbi, não eu! 
Por exemplo, esses dias assisti ao filme 12 anos de escravidão, nunca tinha visto. Tem uma cena em que o cara chicoteia a mulher. Ele sabe o que ele está fazendo, ele pegou o chicote e está acertando a mulher. Ele pode até estar gostando do que está fazendo. Mas não há uma consciência ali. Portanto, em um nível profundo ele não sabe o que está fazendo. Se uma consciência surgisse no mesmo instante, ele se assustaria com o que está fazendo e pararia. Esse é o ponto. Essa é a consciência da qual estamos afastados. Fazemos tudo como se estivéssemos dormindo. Somos robôs ou zumbis. Estamos anestesiados.
Mas nada disso é pessimismo ou tristeza: é felicidade. É uma constatação da realidade: por isso é felicidade. De onde pode nascer um chão pra que possamos pisar com segurança, pra que as árvores possam crescer e dar frutos se não for a partir da realidade?
Parece que não há muita esperança no geral... Mas tem algumas coisas que podemos fazer...
O bem, quando sentido, faz bem e nos alimenta de alguma forma. O bem é uma coisa boa, pura em si mesma: bem. Está disponível no universo: toma! É uma matéria, uma substância ou energia que pode ser sentida e passada adiante. Não sabemos a sua origem, mas a sentimos e consequentemente é uma realidade indiscutível. 
Com isso, é um estado interior que deveria ser buscado porque o bem faz bem. Deveríamos sentir o bem, o amor a cada instante pulsando em nossos corações. Pode parecer cafona, mas é isso mesmo.
Não faz sentido ser de outra forma pois não é natural ser de outra forma. Viver como vivemos é uma agressão contra nós mesmos. 
Sentir o bem no coração e sentir a vida que movimenta o corpo é voltar à vida real e consequentemente à Deus: a vida em tudo. A conexão se faz quando nos damos conta da realidade mesma e a percepção de que se percebe a realidade. A única questão é que nada nos toca. Estamos insensíveis e fechados...Duros como uma pedra. 
É preciso muito trabalho e muito cansaço, muito aprendizado e esforço pra que por alguns momentos alguma coisa se solte. 
Sempre estamos esperando alguma coisa e não vemos como tudo que acontece é mágico. 
A magia já ocorre mas somos incapazes de enxergar. 
Muitas vezes gostaríamos de estar em um lugar especial, viajar pro Tibet talvez... Conhecer um grande mestre espiritual, por que não?!
Mas não vemos que as pessoas aqui do lado estão disfarçadas. Deus se disfarça nas pessoas. Aquele velho e simples faxineiro que faz o seu trabalho focado e feliz pode ser o nosso grande mestre espiritual disfarçado e não sabemos. Isso não é modo de falar. É algo real. Repara em seus olhos como emitem uma força. Ele pode te ensinar um pouco da magia. 
E no final das contas, se pararmos pra perceber, em uma camada mais profunda, todos os seres humanos são os nossos mestres espirituais. Devemos estar numa posição de aprendizado e realmente sentir que cada pessoa é o nosso mestre espiritual e respeitá-la profundamente. Devemos respeitar todos os seres humanos. Ou você não vai respeitar o seu mestre?
Viver só pode ser um exercício de vontade e atenção. Vontade é sentir o bem a cada instante. Vontade é maior que o próprio corpo. 
Se não for assim, nada em mim é verdade e cada passo, cada gesto, cada ação, palavra ou pensamento serão agressões contra mim mesmo, contra a própria vida, por mais simples que sejam. Sinto agora um doce e iluminado remorso de consciência por ser como sou. Se pudesse estender isso para sempre, uma luz poderia brilhar cada vez mais forte. Mas corro o risco certo de perder essa impressão preciosa, profunda e pungente(mas tão benéfica à criação do chão-base pro real) assim que colocar os meus tortos pés na rua e novamente ser vomitado...por mim mesmo, por quem mais?
Vida significa esforço, dor, lembrança de essência, atenção, alegria, trabalho e principalmente amor, que inclui todos os anteriores. 
Qualquer coisa fora dessa esfera,(e no fundo sempre sabemos o que é certo) é um passa-tempo grosseiro de crianças problemáticas, um modo lento ou rápido de se destruir. Podemos enfeitar a história, mas no final dará no mesmo: os poetas são mentirosos tanto para si quanto para os demais. 
Mas quanto a isso, não é um mérito só deles (pobres comedores de flores venenosas, bebedores de água do mar), mas de todos os homens.
Os animais por exemplo, pelo menos estão mergulhados e encharcados de ser, de ser eles mesmos e resplandecer através de um oceano de vida que vibra, pois são a expressão da vida mesma por completo: não há fingimentos. 
A única saída nossa é a submissão e humilhação diante da glória do sol. Diante da natureza da vida, da família do universo, do silêncio cheio e do café.
Tem uma matéria invisível, um som, um campo ao redor e dentro de cada pessoa que diz: sou natureza. 
E então, cada pedra, pássaro, natureza-água, cada planta e as nossas células, meditam e oram, se prostram diante do um. Mas nós não. Não ouvimos. Por quê? 
A verdade é que somos nossos próprios demônios.
Se quisermos ver a face do diabo é só nos olharmos no espelho. Li em um livro. Hoje sinto isso com uma profundidade. Li essa frase há exatamente 5 anos e 3 meses. Eu estava pra saltar do ônibus próximo ao maracanã, indo pra Uerj. Fazia calor, era primavera de 2010.
Se quisermos ver a face do diabo é só nos olharmos no espelho. É ele quem canta o próximo ato.
Como escapar deve ser a pergunta. 
Como falei, nisso não tem nada de triste. Muito pelo contrário. Mas não devemos tentar nada, não há espaço ou tempo para tentativas, devemos fazer com todas as nossas forças. Fazer não é tentar. É fazer. Fazer o que deve ser feito e ponto. 
Sem procurar chifre em cabeça de cavalo, o que para alguns pode ser mais fácil no início, pra outros mais difícil. Mas acredito que no final das contas a dificuldade é mais ou menos a mesma para todos. 
Devo cuidar da vida dentro, da vida no olhar ao céu, da vida nos sons, da vida nos próximos, da vida nos animais, da vida na felicidade das relações e da vida na constatação do belo.
Eu Agradeço. Eu aprendi a dizer obrigado. Eu te digo obrigado. Somos obrigados, faz parte da nossa obrigação como servos da natureza do universo.
Um bom dia para nós, que por sinal é um dia único, único mesmo na história de todos os nossos dias. E sempre será único...Esse dia aqui.

Raphael Krás